Loading...

sexta-feira, 2 de março de 2012

Quem quase nunca???

Ela acorda. Checa o celular. Não tem mensagem. Abre a janela. O dia lá fora é lindo. Liga a tevê. Liga o chuveiro. Checa o celular. Não tem mensagem.
Ele acorda. Abre os olhos. Fecha de novo. Que sono.
Ela desliga o chuveiro. Liga o computador. Não tem email. Não tem mensagem. Vai para a cozinha passar um café. Checa o celular. Liga o chuveiro.
Ele acorda. Abre os olhos. Num esforço sobre-humano, sai da cama. Vai pro banheiro. Liga o chuveiro.
Ela entra no chuveiro. Respira fundo. E chora. Só um pouco. Mas chora.
Ele entra no chuveiro. Toma banho. Que droga, esqueci a toalha na sala.
De frente para o espelho, ela tenta esconder o nariz vermelho e os olhos levemente inchados. Nunca mais choro no banho. Válido somente para hoje. Toalha na cabeça, vai para a cozinha. Enche a xícara de café. O dia lá fora é lindo. Grande coisa.  Esse café ficou fraco. Chora.
Ele sai do chuveiro pingando e molha todo o caminho até a sala. Respira fundo. O dia lá fora é lindo. Pensa: pão com margarina ou com geléia?
Ela termina a xícara de café com o celular na mão. Nenhuma mensagem. Volta para o computador. Nenhum email. Vou me atrasar. Maquiagem de emergência. Seca o cabelo. Batom, rímel, base. Escova, chapinha. De quê adianta se nenhuma roupa tá me servindo?
Ele troca de roupa, pega a carteira, o celular, a chave de casa e sai.
Ela chega atrasada. E com cara de velório.
Ele tem um dia de trabalho cheio.
Ela checa o celular. Nenhuma mensagem. Nada no email. Nada no Facebook. Será que ele me bloqueou?
Na hora do almoço, ele não resiste e pede um choppinho. Só pra relaxar.
Ela chama todas as amigas para almoçar. Ele está há 3 dias sem mandar nenhuma mensagem. Acho que acabou. Acho que ele mentiu. Ele disse que eu sou linda. Que eu sou demais. Mas nunca mais me procurou. Ela chora. A maquiagem borra. Ela precisa ir no banheiro consertar toda a maquiagem.
Ele pede mais um choppinho. Só pra relaxar.
Ela volta para o trabalho. Com cara de velório.
Ele tem um dia de trabalho cheio.
Ela chega em casa. Joga a bolsa no sofá. Tira os sapatos. Abre uma lata de leite condensado. Brigadeiro. Brigadeiro vai me deixar melhor.
Ele chega em casa. Abre uma cerveja. Uma cerveja vai me deixar melhor.
Uma panela de brigadeiro depois, ela chora.
Ele abre outra cerveja.
Ela tira o que sobrou da maquiagem. Coloca um pijama qualquer. Não vou jantar. Não tenho fome. Só de brigadeiro. Checa o celular. Nenhuma mensagem. Vai para a cama. Caixa de lenço de papel do lado do travesseiro. Ela chora.
Ele olha para o celular. O que será que ela está fazendo agora?
“Saudades. Posso te ligar?”
Fim.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Amores

Amor: eu também achei que era aquele. Que, feito nos contos de fada, tinha tido a sorte de encontrar o primeiro que também era o último. Que era o definitivo, infinito e infinitivo. Não era. Também achei que era o segundo, o terceiro, o décimo nono. Não eram. Achei que o amor era aquele sofrimento, aquele vazio que ficava quando alguém ia embora. Que não havia maior prova de amor do que aquele sentimento me corroendo por dentro. Se doía, era amor. Não era.
Eu também achei, lá pelas tantas, que não existia. Que era uma invenção moderna, relacionada com filmes, com situações bonitas que só aconteciam na ficção. Eu também achei que nunca ia acontecer comigo. Igual você achou um dia: isso daí não é pra qualquer um, é pra poucos; encontrar a pessoa perfeita e ter certeza que é com ela que você vai ficar pra sempre. Achei que meu destino era ser pra sempre uma espectadora dos romances alheios. Não era.
Já confundi o amor com um monte de coisas: carência, saudade, vazio, dor. Chega uma hora que você já nem sabe se é amor ou se é só fome. Acontece. Eu também já achei que o amor era complicado. E por conta disso, lá se foram mais uns 14 não amores. Confundi o amor com confusão.
Já achei que o amor era azul, rosa, vermelho, se bobear achei que o amor era de alguma cor estranha como fúcsia ou cáqui. Não era. Eu também achei que era difícil, que falava outra língua. Achei que era só esperar a hora certa, já achei que o amor era casado, divorciado e enrolado. Não era.
Acreditei em todas as nuances do amor que não era amor. Pessoa certa na hora errada. Não é você, sou eu. Não quero te fazer sofrer. Achei que tudo isso era o amor chegando ou muito cedo ou muito tarde. Não era.
E, ao mesmo tempo, amei tanto. Amei torto, amei confuso, amei errado, amei de tantas cores e de tantos tamanhos, amei com tantos pesos e tantas medidas. Amei do jeito que deu, do jeito que eu sabia, do jeito que eu achava que era. Não era. Quer dizer, era. Mas não era o amor que tinha que ser. O amor que não confunde, não atrasa nem adianta. O amor bate à porta sim, se você não estiver, ele espera você chegar. O amor não é perfeito, e por isso mesmo eu não me canso de olhar pra ele.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Até a eternidade

O gancho vem daqui– amor tem de sobra, o que falta é gente qualificada pra receber. O que te qualifica pra receber? Aí depende. É subjetivo demais, emocional demais, inexplicável demais.
Na mesa ao lado, três casais jantavam juntos. A loira de cabelos nos ombros e voz estridente reclamava do namorado, na frente dele e de todos os amigos. Que ele chegou cedo demais para buscá-la. Que no outro dia, atrasou meia hora. Que aos domingos, dorme até o meio-dia. Que deuzolivre se ele acha que depois de casar vai continuar dormindo assim – já pensou?
Não. Não pensei. A única coisa que pensei foi “por quê raios vocês vão casar se ele é tão ruim assim?”. Ruim é ela, pensei em seguida, enquanto escolhia a sobremesa. Entre uma grosseria e outra, vem a pérola: “mais uma cerveja? Você não acha que tá bebendo demais?”. A loira, chata que só, alfinetava o noivo enquanto o garçom, plantado à beira da mesa, ostentava um sorriso pra lá de amarelo.
Discutir na frente dos outros é isso: sorriso amarelo. Desdenhar da pessoa “amada” na frente dos outros é péssimo – hipocrisia, aliás, chamar de “pessoa amada” alguém que você só destrata. O mundo tá cheio de gente querendo ter alguém pra tratar bem. É bom ficar atento.
Olhei, tentando disfarçar, enquanto eles discutiam quantas cervejas já tinham ido goela abaixo. O sorriso amarelo do garçom era compartilhado pelas outras pessoas que jantavam com eles.
Olha pra mim, roupa suja você lava em casa.
Guardadas as devidas proporções, é nisso que eu acredito. Que as relações duradouras são aquelas em que os problemas são discutidos, divididos e resolvidos dentro de casa. Depois que a gente escolhe e é escolhida, tem que dividir muito mais do que a cama, uma garrafa de vinho e o tubo de pasta de dentes. Tem que dividir dias ruins, dias frios, dias cansativos, problemas. Tem que multiplicar paciência, tem que respirar fundo. Tem que ponderar. Mas não tem que contar nada disso pro mundo não. Não tem nada mais feio, deselegante e sorrisoamarelante do que um casal fazendo picuinha em público. Não importa se é o cara que zoa a namorada ou se é a namorada que enche a paciência: é uma bomba de efeito moral pra quem está perto.
Porque o amor, esse bichinho danado que a gente tanto quer pra vida, tem mesmo que ser regado, cultivado, pra durar pelo menos 64 anos. Não adianta amar no Facebook, botar foto com filtro tirada em Veneza, música romântica como legenda. Tem que ser de verdade, de carne e osso.  Tem que ter orgulho de quem ama. E ser motivo de orgulho também.
A velha história de deixar o lado bom pesar mais na balança, sabe? Porque daqui a 64 anos, quando você estiver doente numa cama, acredite: só tem uma pessoa no mundo que vai cuidar de você até o fim. Não serão seus pais, nem seus irmãos, nem seus filhos. Vai ser esse cara aí, que bebe muita cerveja, se atrasa sempre e só acorda depois do meio-dia.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O que você vai fazer amanhã?

Estava aqui pensando em como as coisas mudam todo o tempo, o tempo todo. Como faz sentido aquela conversa de que um dia não é igual ao outro, mesmo que se pareça, mesmo que esteja tão frio quanto, mesmo que você acorde na mesma hora e cumpra a mesma rotina.
De tempos em tempos eu fico assim melancólica, pensando em como tudo é efêmero, em como era a vida há um ano atrás. Nas pessoas que eu ainda nem conhecia e que hoje são essenciais e estão aqui escrevendo aquilo que vou ler daqui a um ano. 
E nas essenciais que estavam tão perto e hoje fazem parte do há-um-ano-atrás.Meu chuveiro não é o mesmo, minha cama não é a mesma, nem a minha mesa do trabalho é a mesma. O número do celular que mudou, as músicas que eu escutava e estão perdidas nos CDs empoeirados na prateleira, as coisas que doeram tanto e perderam o sentido.Pelo caminho ficaram e-mails, histórias, saudades, pessoas, fotos, festas, noites em claro, caixas de mudança, roupas que não servem mais. Está tudo lá e não volta mais. Está tudo aqui e não cabe mais.
Hoje, agora, esse exato instante em que eu escrevo. Esses minutos em que você lê. Nunca mais serão iguais. Nunca mais seremos os mesmos.Daqui a um ano talvez esteja tudo igualmente diferente, diferentemente igual, não importa.
Vai ter mudado tanto, tanto, que por um instante tenho vontade de colocar a minha vida inteira debaixo do braço e ir embora para um lugar distante onde ninguém a tire de mim. Como se isso fosse possível.“A gente muda tanto que eu me pergunto o que é que sobrou de mim nisso tudo”.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Nuvens cinzas

Se você não é feliz provavelmente a culpa é sua.
Logo eu, que sempre achei um saco pessoas que estão sempre felizes, me rendo. Eu quero ser feliz também. Não o tempo todo, mas a maior parte dele… é possível? É sim. É só parar de ver a nuvem cinza do mundo. Chega de criticar tudo e todos o tempo todo. O mundo já é tão crítico, ranzinza, rabugento, cruel. Não vou engrossar o coro, não quero fazer parte dessa massa. Não vejo mais graça alguma em ser o personagem rabugentinho de todas as histórias. Eu vou me esforçar. Não vou criticar, não vou reclamar. Não, não e não.
Mas o mundo já é tão crítico – devo me mudar pra uma ilha? As pessoas criticam tudo. O que você se veste, o jeito que você dirige, as coisas que você fala, o jeito que você come, o jeito que você senta, o modo como segura o garfo. As pessoas criticam se você demora 4 segundos pra arrancar com o carro no semáforo aberto. Dentro dos próprios carros, reclamam baixinho – às vezes nem tão baixinho. Em pensamento, criticam cada palavra que você fala se o assunto não interessa. Às vezes, criticam se o assunto interessa também. As pessoas reclamam do trânsito, das filas, do calor, do frio, do trabalho, da falta dele, do chefe, do estagiário, do esmalte que descasca, da comida que demorou, do tempero que estava ruim, do filme que era chato, do fulano que só fala sobre moto.  Sem perceber, são as maiores responsáveis pela desordem de emoções que isso tudo virou.  E se antes era só reclamar, dar um xingo e passar pra próxima, agora veja que sensacional: dá pra registrar todas as reclamações na internet, em apenas 140 caracteres. As reclamações proliferam, uma grande nuvem cinza domina o mundo. Reclamam do calor, do atendimento no guichê do banco, da fila pra recadastrar o título de eleitor, do pneu do carro que furou, do salto do sapato que quebrou, do chuveiro elétrico que queimou, da empregada que faltou. Da história que o fulano contou.
Reclamam, reclamam, reclamam. Reclamam até que falta amor. Amor tem de sobra – o que falta é gente qualificada pra receber.

domingo, 31 de julho de 2011

Você pode não ser o primeiro, seu passado, ou só dela.

Você pode não ser o primeiro, seu passado, ou só dela. Ela já amava antes de poder amar novamente. Mas e se ela te adora agora, o que mais importa?
Ela não é perfeita - muito menos você, e vocês dois podem nunca ser perfeitos juntos.Mas e se ela pode fazer você rir, fazer com que você pense duas vezes e admitir pequenos  erros humanos? (...) Agarre-a e lhe dê mais do que você pode.
E
la pode não estar pensando em você a cada segundo do dia, mas vai lhe dar uma parte dela que ela sabe que você pode quebrar - o coração dela. Portanto, não a machuque, não  troque, não analise e não espere mais do que ela pode dar.
Sorria quando ela o te faz feliz, deixe ela saber quando ela te deixa louco e sinta falta dela quando ela não estiver mais lá!

terça-feira, 3 de maio de 2011

Cóleras amorosas.

Tenho pensado muito nos “porquês” da vida, se existe algum sentido nisso tudo, especialmente nas relações. Não somos só cada vez mais escravos da tecnologia, nos tornamos escravos de nossas verdades absolutas e, o que antes nos aproximava uns dos outros (afinidade, amor) já não é mais suficiente. Não adianta você gostar de alguém: você precisa provar, e essa prova só será aceita se ficar dentro do quadrado que a outra pessoa considera válido.  A amizade e suas nuances, suas peculiaridades, aquelas coisas que fazem você gostar da pessoa pelo que ela é, nada disso é suficiente: você não pode falhar.
Relações ficaram descartáveis e isso ainda é esquisito para mim. Sinto, sofro, demoro a me recompor. Sinto falta até hoje de amigos que não estão mais aqui há anos, seja pela distância, pela mudança de planos ou por coisas chatas da vida. Todos deixaram lacunas que nunca foram preenchidas (e nem serão). Sinto falta das coisas que SÓ ELES faziam, e não das coisas que eles “nunca teriam feito”. Lembro de risadas, de segredos divididos, de situações malucas, de conversas e de silêncios. Mas acima de tudo lembro que me amavam à sua maneira – e esse amor, mais dia menos dia, acaba fazendo falta.
Deixar de amar dói, mas a essa altura da vida a gente já sabe que não é assim uma missão impossível.